quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Felipe de Camargo: o Peão Farroupilha da 8ª Região Tradicionalista


Quando falamos sobre a cultura gaúcha, muitos vem na nossa mente a imagem do gaúcho campeiro na lida de campo laçando bois ou domando cavalos. Mas ser gaúcho vai além das atividades campeiras.

Dançar em invernadas, declamar em concursos artísticos e conhecer a história da Rio Grande do Sul são requisitos que muitos peões que participam de entidades tradicionalistas se dedicam a aprender.

Um belo exemplo de amor e dedicação com cultura gaúcha é o atual Peão Farroupilha da 8ª Região Tradicionalista e do CTG Porteira do Rio Grande, Felipe de Camargo, de 20 anos, estudante do curso Direito da Universidade de Caxias do Sul.

Felipe de Camargo, Peão Farroupilha da 8ª Região Tradicionalista. Arquivo pessoal


Assim como entrevistamos as prendas Taynara Oliboni e Jéssica Maciel, o blog Repórter Riograndense conversou com Felipe sobre seu início no tradicionalismo, sobre os requisitos necessários para ser o peão farroupilha e também sobre o futuro do tradicionalismo em relação as próximas gerações.


Como foi o seu primeiro contato com a tradição gaúcha?


Felipe de Camargo: Iniciei minha caminhada tradicionalista no ano 2000, junto a um projeto desenvolvido por peões e prendas de entidades tradicionalistas aqui do município - integrantes do projeto iam até as escolas e trabalhavam assuntos relativos a danças tradicionais e de salão. O projeto durou cerca de seis meses, e após seu término, por convite de uma amiga da família, iniciei minha caminha em uma entidade tradicionalista com cinco anos de idade. Foi então que ingressei no Grupo de Cultura Gaúchos de 35, onde permaneci por algum tempo. Foi um período de muito aprendizado, que vai além da dança: aprendi a verdadeira essência do “ser tradicionalista”. Acredito que tenha sido este o momento em que ensejou em mim a vontade de contribuir com a cultura gaúcha.

Sabe-se que dentro das invernadas de dança temos diferentes categorias, e quando passei à categoria Juvenil, minha entidade não contava com a respectiva invernada. Foi então que fiquei um tempo afastado do Movimento, até surgir o convite para eu integrar a invernada Juvenil do Centro de Tradições Gaúchas Porteira do Rio Grande, o qual pertenço até hoje, integrando a invernada Adulta. Portanto, posso dizer que a dança sempre esteve presente na minha caminhada tradicionalista, foi o ponto que me chamou atenção e fez com que me permitisse alçar outros objetivos dentro do Movimento Tradicionalista Gaúcho.

Felipe nas ruínas de São Miguel da Missões. Arquivo pessoal


Quando que surgiu a oportunidade de ser Peão Farroupilha?


Felipe: Desde 2014, já fazia um tempo que estava no CTG Porteira do Rio Grande, e então abriram as inscrições para o “Entrevero Cultural de Peões e Ciranda Cultural de Prendas”. Desde o início me despertou o interesse de participar desta área do tradicionalismo, que até então não conhecia.

Como tudo na vida temos caminhos distintos e assim devemos escolhe-los, no mesmo ano do “Entrevero” estava terminando o Ensino Médio, e consequentemente, eu prestaria vestibular para iniciar minha vida acadêmica. Diante dessa situação, decidi postergar a participação para o ano seguinte. Porém, mesmo não sendo membro do Departamento Cultural da entidade, participava junto com os peões e prendas nos eventos culturais, palestrava, realizava as apresentações, e foi durante esse período que pude ter a certeza do que eu queria, e entender a magnitude do Movimento Tradicionalista Gaúcho.

Em 2016 me consagro então, “Peão Farroupilha” da entidade e, esse ano, “Peão Farroupilha” da 8ª Região Tradicionalista.

O cavalo é o melhor amigo do gaúcho para atividades do campo. Arquivo pessoal


Quais são os requisitos para ser Peão Farroupilha? 


Felipe: Primeiramente, acredito que antes de se discutir requisitos, é necessário que o peão queria assumir como “Peão Farroupilha”, e entender todos os percalços que o caminho vai ter. As provas seguem basicamente os moldes dos outros concursos: prova escrita; provas campeiras (emalar capa ou poncho, chimarrão, trançar, encilhar o cavalo, entre outras); prova oral; prova artística; pasta relatório; e pesquisa de campo. Vale ressaltar que todos os temas são disponibilizados com antecedência e com indicação bibliográfica.

Para ser um peão farroupilha é preciso dominar as atividades campeiras. Arquivo pessoal


Quais são as outras atividades que você participa no CTG?


Felipe: Como um dos requisitos para a prova artística é ter uma apresentação individual (cantar, declamar ou tocar um instrumento), decidi declamar, atividade que realizo desde minha preparação para o meu primeiro concurso e sigo até hoje. Mas, acredito que toda e qualquer atividade dentro e fora de nossas entidades, que visem preservar valores e enaltecer a causa tradicionalista, são válidas e dignas de aplausos.


O que você mais gosta da cultura gaúcha?


Felipe: Durante a caminhada através do tradicionalismo, passamos por muitas experiências, as quais posso dizer com toda certeza, são enriquecedoras para o intelecto e acima de tudo, os laços fraternos que temos a chance de criar. Hoje, mesmo com a carga cultural que carrego, não saberia dizer com precisão o que mais gosto na cultura gaúcha. Reafirmo que toda atividade dentro do Movimento Tradicionalista Gaúcho só vem a somar com as ideias que se assentaram ao longo dos seus 52 anos de história.


Como os CTGs podem atrair mais jovens para o tradicionalismo?


Felipe: Jovens tradicionalistas são a engrenagem propulsora para a perpetuação da cultura gaúcha, e sendo o Movimento Tradicionalista Gaúcho a tradição passada de geração em geração, e o jovem a parcela mais ativa que compõe esse movimento, a responsabilidade deste, aumenta.

A partir do momento que o jovem toma consciência de que o Movimento é a tradição que recebe dos mais velhos, cabe a ele trabalhar para que possa garantir que passará essa mesma cultura, ainda mais aperfeiçoada, de modo que respeite os princípios base do MTG, mas que a torna cada vez mais acessível e igualitária a todos que enseje a vontade de integrar essa associação cívica e cultural. Atualmente, vejo que as entidades tradicionalistas devem abrir mais suas portas para receber os jovens. Vivemos em sua sociedade diferente daquela de 1947 (início do Movimento organizado), mas nem por isso a sociedade de hoje, pode ser considerada menos gaúcha.

Barbosa Lessa, no ano de 1954, quando apresentava a Tese do Sentido e o Valor do Tradicionalismo, mostrava-se preocupado com o jovem na sociedade e sua participação dentro do tradicionalismo: “pois a maneira mais segura de garantir à criança o seu ajustamento à sociedade é precisamente fazer com que ela receba, de modo intensivo, aquela massa de hábitos, valores, associações e reações emocionais - o patrimônio tradicional, em suma -, imprescindíveis para que o indivíduo se integre eficientemente na cultura comum”, disse.

Acredito que o Movimento tem muito a agregar na sociedade, mas antes disso, ambas as partes deste processo (MTG e os jovens), devem entender que os tempos são outros e que ambos podem convergir nas mesmas ideias, desde que respeitados os princípios tradicionalistas.

Felipe se orgulha de ser um defensor da cultura gaúcha. Arquivo Pessoal


O você diria para algum jovem que quisesse fazer parte de CTG e se tornar tradicionalista?


Felipe: Estamos dentro de um meio muito saudável, onde é possível perceber que todos têm espaço e voz, desde as gerações mais novas, até as mais experientes. O tema deste ano do MTG nos diz: “unindo gerações para construir o amanhã”, ou seja, precisamos de pessoas que venham a somar cada vez mais com a causa tradicionalista, que se doem por inteiro e, acima de tudo, que estejam abertos ao aprendizado e a criação de laços fraternais dentro de nossas entidades.

É costumeiro dizer que cada Centro de Tradições possuí sua família tradicionalista, e de fato criamos estes sentimentos de irmãos que lutam pelo mesmo objetivo, preservar valores e resgatar os legados de nossos antepassados. É necessário que todo aquele que tenha a premissa que ingressar no meio tradicionalista entenda que acima de um espaço de cultura e lazer, temos a responsabilidade de levar adiante os compromissos assumidos nos diversos ramos que o tradicionalismo nos oferece, seja no departamento campeiro, artístico, cultural ou outros. Somos a vitrine de inspiração para as novas gerações.

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